Todas as manhãs passo café em uma rotina, semi-acordada e na pressa. Mas hoje não. Hoje é feriado, tenho tempo.
E então lembrei da louça que herdei de minha mãe. Lembrei que muitas vezes bati um Nescafé com acúcar e água até ficar cremoso - chamávamos de "pretinho", e esse era um café especial para meu pai. Mas acho que era mais especial para mim. Era minha habilidade culinária da época, tinha o ponto certo e exigia a quantidade certa dos ingredientes e um certo ritmo, ao menos em minha memória. Era um presente só meu para meu pai.
Sobre a louça, o mais especial sobre ela se refere a todas as mesmas memórias afetivas que afloram em mim. Minha mãe teve uma mistura de sabedoria de vida ao usá-las no dia a dia e a delicadeza de cuidar tão bem delas que me deixou como herança, intacta. Na verdade nos passou em vida, uma para mim, e outra para minha irmã. Não deixou para depois. Este ensinamento, nunca verbalizado por completo, levo comigo, na alma. Aproveitar o que se tem, se permitir algumas pequenas extravagâncias que dão colorido aos dias, que criam sorrisos no rosto quando surgem na mente. Criar momentos especiais, com significados únicos.
Eu acho que isso tudo tem a ver como vejo e pratico a oncologia. Assim como aprendi com minha mãe a aproveitar as oportunidades para tornar momentos simples em especiais, o ambiente onde trabalho tem que apresentar estes pequenos cuidados aos pacientes em tratamento. Não estou falando do café (mas poderia), mas dos momentos de atenção a estas pessoas que chamamos genericamente de pacientes, que carregam suas memórias, suas vivências, seus desejos e planos. E precisam que a fase de tratamento tenha um certo colorido, um calorzinho no coração. Acredito nisso, porque vivencio isso diariamente na Oncosinos. Pelas palavras dos pacientes. Pelas suas atitudes.
Além disso, a oncologia me permite viver o dia sabendo que o amanhã pode nos reservar surpresas nem sempre agradáveis, então porque não curtirmos um pouco o que temos de melhor, todos os dias? Pode ser uma roupa, um perfume, um café. Levar os filhos na escola. Dar uma caminhada no fim de tarde. Enfim, podemos eleger o que fizer sentido, e transformar em um momento especial do dia sempre quando possível.
Quanto ao atendimento médico, entendo que precisamos desenvolver ao máximo nossa sensibilidade, dedicar tempo, desenvolver experiência e prestar muita atenção: pois compreender o que realmente podemos fazer de melhor por esta pessoa que está em nossa frente pode muitas vezes demorar muito para ser extraído. É o tipo de informação que não aparece nos primeiros dez minutos de consulta, e pode nunca ser compreendida se não estivermos atentos e preparados para receber e acolher. E se não tivermos tempo com os pacientes.
Vou parar por aqui, caso contrário sigo com digressões... e tenho uma louça para lavar, com muito cuidado e carinho.